domingo, 25 de maio de 2014

"Garota, Interrompida": a história de uma garota que enlouqueceu

Winona Ryder interpretando Susanna Kaysen no filme de 1999.

Susanna Kaysen poderia ser apenas mais uma garota de 18 anos que não tinha um plano muito concreto para o seu futuro. Mas um dia morrer pareceu uma boa ideia, e ela tomou uma garrafa de vodka com muitas aspirinas.

Situado nos anos 60, o livro Garota Interrompida recebeu uma adaptação cinematográfica estrelada por Winona Ryder e Angelina Jolie. Para quem viu o filme antes de ler a obra, desvincular Susanna e Lisa dessas duas faces ilustres pode ser difícil. (isso não é necessariamente um problema, já que ambas as atrizes foram capazes de capturar as essências das personagens - que são reais - mesmo com as mudanças no roteiro em relação ao livro).

Em 1960, ser louca era fácil. As mulheres desviantes da norma eram hospitalizadas por motivos pequenos, passando, muitas vezes, grande parte de sua vida em hospitais psiquiátricos sem o mínimo de dignidade e tratamento humano. Susanna Kaysen teve a sorte de ser internada num hospital particular, pago por seus pais, o que caracteriza sua história como uma exceção diante dos inúmeros abusos cometidos contra mulheres em tais instituições.

Após a tentativa de suicídio e outros episódios de depressão, auto-mutilação e algo como alucinações, os pais de Susanna a incentivam a passar "algumas semanas" num hospital psiquiátrico. Embora repetindo constantemente aos médicos que seus pais a obrigaram a isso, é ela mesma quem assina os papéis e se interna no hospital, sem dizer não à sua família ou médicos. Sua relutância em admitir que possuia, de fato, um problema, se mescla com a inconsciente vontade de fugir de um mundo de cobranças: ela era a única formanda de sua escola que não iria para a faculdade. Quando arranjaria um emprego bom? Quando arranjaria um marido? Até quando sofreria pressão por ser tida como promíscua? Embora se tratasse de um hospital, o claymoore Hospital torna-se o refúgio de Susanna contra uma realidade com a qual não estava em condições de lidar.

Para analisar a história de Susanna, é preciso entender que suas atitudes auto-destrutivas não partiam de um ódio consciente contra si mesma. A ideia de morrer a perseguia, porque a vida não era interessante o suficiente para permanecer. Susanna descreve em suas memórias que a overdose de aspirina foi uma experiência não de suicídio em si, mas de transformação, de assassinato da fração de si que desejava morrer. Por um tempo, funcionou, mas ela notou que essa experiência não foi suficiente para matar sua parte considerada defeituosa.

Numa passagem interessante, Susanna se dedica a relembrar o tempo que passou com o médico que a interna em claymoore. Ela conclui e argumenta insistentemente para o leitor de que não passaram-se 5 minutos de conversa entre eles para que aquele homem decidisse que ela deveria ser internada num "hospício". O argumento do Dr. é de que passou-se mais de uma hora: Susanna então deixa para o leitor a decisão de acreditar ou não nela. Nesse capítulo, vemos tanto a necessidade da autora em não ser tida como louca, quanto sua própria dúvida sobre sua sanidade. É essa, talvez, a essência de Garota Interrompida.

No hospital, Susanna encontra amizade, talvez, pela primeira vez. Na obra não são mencionados outros amigos ou amigas de Susanna, e ainda assim ela constrói uma relação de apoio mútuo na medida do possível com mulheres que ela considerava um tanto quanto mais loucas do que ela, ao mesmo tempo em que questionava o que é, afinal, ser louca.

Diante das histórias das mulheres no claymoore Hospital, Susanna percebe que, talvez, todos sejam um tanto loucos, mas que aqueles que são internados são os que tornaram-se inconvenientes. Aqueles que estragam as festas dos pais ou que, talvez, comecem a latir para um vendedor. A pessoa que sente vontade de latir e não o faz também é louca?

Diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline, Susanna não compreende sua própria doença, e demora muito tempo para sequer admitir que possuída um problema. Sua estadia no hospital foi de 18 meses, e foi depois de todo esse tempo que Susanna entendeu a loucura ou o que diziam ser: ela era uma garota de 18 anos que pensava demais, que duvidava da realidade e que fazia o que queria fazer. Talvez ela devesse ter algum tipo de freio mental que a impedisse de engolir um vidro inteiro de aspirinas, mas, para a autora, é essa a raiz do seu problema (e de todas as pessoas loucas): "Loucura é você amplificado."

O ambiente do hospital retirava das mulheres direitos básicos, como dormir ou depilar as pernas sem ser observada: ali era sua transição, ou, como Susanna descreve, "eles nos desvestiam até os ossos". A vulnerabilidade de estar num ambiente monitorado era considerada, pelos profissionais, uma pausa entre o mundo real do paciente doente e o mundo real do paciente são. Talvez fosse este o conforto que fez com que Susanna permanecesse em claymoore por tanto tempo, até ser capaz de entender a si mesma. A estranha liberdade de apenas ser. Até mesmo pequenas noções do espaço eram difíceis para que Susanna lidasse, como opostos: preto e branco, frio e quente. Decisões com as quais ela teria de lidar e que se tornavam monstros sob sua cama, mas que desapareciam sob a perspectiva de um local neutro e livre de pressões sociais.

Susanna deixa claro que sua recuperação não partiu dos médicos que a diagnosticaram e sim do que o paciente é capaz de fazer a partir desse diagnóstico e como seu corpo e mente são capazes de trabalhar com esse parecer.

A adaptação cinematográfica passa longe de descrever a jornada de Susanna no hospital. Aos poucos, o filme se torna muito sobre a visão de Susanna em relação a Lisa, e as duas fogem juntas - um evento que não acontece na história real de Susanna. O Hospital, para a Susanna verdadeira, era um refúgio do qual ela só saiu definitivamente quando estava pronta.

Garota Interrompida é um livro que deve ser lido com a atenção de que trata-se de um memoir, ou seja, as memórias de uma garota de 18 anos que passou dois anos internada num hospital psiquiátrico. A visão da paciente, de louca, de artista e escritora se intercalam numa narração crua e sem rodeios sobre coisas feias que se escondem em celas solitárias: suicídio, auto-mutilação e a dor da dúvida.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides


Uma história de fim óbvio, não só pelo título, mas pelo peso de seu tema. Jeffrey Eugenides caminha por uma escrita impecável, suave e feminina dentro de uma temática densa demais para meninas tão jovens e privilegiadas.

Virgens Suicidas se passa num subúrbio americano típico: famílias brancas de classe média alta, cristãs e vivendo o Sonho Americano: um carro grande, uma boa casa, filhos saudáveis. No entanto, o pecado das meninas Lisbon é serem quem são: rachaduras no sistema, no seio da família tradiconal, no amor que os pais juram ter dado.

Como narra Eugenides, Cecília foi a primeira a ir. Não na primeira, mas na sua segunda tentativa, e sua dor era ser: quando um médico questiona o suicídio de uma jovem tão bonita, ela aponta o óbvio: "Obviamente doutor, o senhor nunca foi uma menina de 13 anos.".

Embora durante a narrativa fique claro que as cinco meninas Lisbon viviam sob um teto conservador e bastante limitado para jovens de sua época, elas não são maltratadas. Aqueles são os retratos de muitas de nós mulheres que crescemos ouvindo que querer um batom ou desejar um garoto era sujo, e que nós arderíamos no inferno caso quebrássemos a regra. O feminino era nossa prisão, um "caos feminino" inutilmente controlado por pais inseguros, em que ser mulher era um mundo de absorventes, laços cor de rosa e infantilização.


Embora adolescentes, as meninas Lisbon eram frequentemente tratadas como crianças (até mesmo pelos narradores, admiradores das suicidas), sem poder expressar qualquer traço de estarem atingindo a vida adulta, sem o direito de serem adolescentes que eram: seus hormônios e a vontade de serem desejadas por homens era mascarada por debaixo de vestidos feios demais e infinitas regras. A mãe que protege as filhas porque sabe que o mundo é cruel com as mulheres que andam fora da linha.

Após a morte de Cecília, os vizinhos dos Lisbon se questionam o que fez com que a menina se jogasse da janela do seu quarto. As hipóteses são várias, mas decidem por retirar a cerca na qual a menina de 12 anos havia se empalado, como se acostumaram os adultos a resolver problemas que não são sólidos.

Uma das meninas é alvo de maior atenção no livro, Lux. Aos 14 anos após a morte de Cecília e uma desilusão amorosa, Luz se envolve num ritual que, inicialmente, soa poético: os narradores a observam fazendo sexo no telhado da sua casa, fumando e quebrando as regras mais preciosas de sua família somente com o céu (e os garotos) como testemunha. Logo fica claro que esse era seu bilhete de suicídio, um ciclo de auto-destruição em que Lux sequer tirava algum prazer sexual de seus encontros noturnos, mecânicos e frequentemente unilaterais.

Depois dos pais desistirem de cuidar da casa, ou das meninas, os Lisbon e sua propriedade tornam-se a imagem de um sistema que falhou: uma mancha suja numa vizinhança perfeita, denunciando seja lá o que for que havia de podre ali.

O final da história era iminente: depois de censuradas, isoladas e de luto pela morte de uma das irmãs, as meninas Lisbon contatam seus admiradores por saber que eles as compreediam e, mais importante ainda, as amavam assim como eram, sedentas, ambiciosas e imperfeitas. As meninas não se despedem de ninguém, convidam os rapazes para levá-las para longe e, de certa forma, são mesmo eles quem as conduzem na viagem que as distanciaria da vida sufocante que viviam antes.

O romance de Jeffrey Eugenides traz a reflexão de uma juventude feminina deprimida e castrada. As virgens suicidas não são virgens no sentido sexual, mas virgens para a vida e suas belezas. O que as meninas Lisbon conheceram de bom se limitava na vida familiar e nas pequenas coisas compartilhadas por irmãs que se amam, e tão cedo perceberam que isso não era suficiente e que não poderiam esperar para ver se esse cenário mudaria. As virgens suicidas são todas as mulheres, cada uma de nós que oscila entre a inocência para mundo e a dor de sermos limitadas.

terça-feira, 11 de março de 2014

Manifesto de uma fã de mulheres


Ouça mais bandas de mulheres.

Se você acredita em feminismo, ou em que mulheres são tão capazes de fazer música boa quanto homens, ouça mais música feita mulheres. Já existe todo um mercado que prioriza homens e que restringe o acesso de musicistas ao cenário musical que lhes é merecido: dê um espaço na sua biblioteca a essas artistas.

Por muito tempo se acreditou (e ainda existem alguns anciãos que insistem nessa teoria) que mulheres não podiam tocar guitarra bem, quase como japoneses acreditam que as mãos femininas são quentes demais para fazer sushi. Talvez daí tenha vindo todo o preconceito que as mulheres receberam quanto tentaram adentrar o mundo do rock e suas vertentes.

Me lembro de assistir uma entrevista com a banda Dominatrix em que Elisa Gargiulo contava que jogaram garrafas de vidro no palco durante uma apresentação, nos primórdios da carreira: mulheres não são bem vindas. Mulheres feministas muito menos.

Mulheres no rock (e suas vertentes) são chaveiros pendurados em jaquetas de couro de rapazes bonitos de voz grave. Mas tudo bem, por que afinal, quem não quer ser a courtney Love de um Kurt cobain, não é mesmo? Você mulher, tem sorte de andar do lado de um cara tão bonito e talentoso assim. Ele poderia ter absolutamente qualquer uma, mas ele escolheu você!

Surgiu um desafio no Facebook que se tratava de listar livros importantes na sua vida. Rapidamente, uma amiga notou que os livros escolhidos pelas pessoas eram predominantemente (quase 100%) escritos por homens, com personagens homens. Ela desafiou as amigas feministas a listarem livros que tenham lido, escritos por mulheres: foi surpreendentemente difícil. Não porque mulheres não escrevem bem (vou supor que qualquer um lendo este texto saiba disso), mas porque a literatura, assim como (surpresa!) todos os outros espaços na nossa sociedade, é dominada por homens.

Nos últimos dias surgiu também um desafio dos Álbuns que marcaram sua vida. Percebi que os álbuns que marcaram a vida das pessoas (muitas delas mulheres) haviam sido feitos por bandas exclusivamente de homens. Por que as mulheres não estão marcando a vida das pessoas? Por que mulheres não estão se identificando com mulheres?

Nós também sabemos que as mulheres são valorizadas muito mais por seus aspectos físicos do que por qualquer outros: inteligência, perspicia, agilidade, etc. As musicistas estão sempre sendo pressionadas a investirem em sua aparência, não porque mulheres são naturalmente fúteis, mas porque, aparentemente, quando se trata de mulheres e talento, não importa se sua música é do caralho, se você não tem um rosto bonito, sua carreira se torna bem mais difícil.

Uma das coisas que me entristece é ler os comentários do Youtube de qualquer musicista, seja ela do tipo que dança sensualmente com pouca roupa ou que é recatada. Na primeira, seu talento é completamente esquecido (enquanto homens podem tocar sem camisa à vontade), e na segunda, ela é comparada à outras artistas que preferem mostrar o corpo em suas performances. A necessidade dos fãs (e da indústria) em comparar musicistas me choca. A competitividade feminina é estimulada em absolutamente todos os aspectos da vida de uma mulher.

A indústria não suporta ver duas mulheres fazendo sucesso ao mesmo tempo.

Recentemente a cantora Anitta tem feito covers de algumas músicas da Pitty. Anitta canta funk, Pitty canta rock. Ambas são musicistas, de gêneros diferentes, e uma respeita o trabalho da outra. A indústria (e os fãs) não suportaram o respeito (a sororidade!) entre duas mulheres: logo surgiram comparações, entre, obviamente, a aparência das duas e o modo de vestir. Pitty se pronunciou justamente sobre isso, chocada com o fato de que a profissão das duas foi completamente esquecida pelos fãs e, enquanto mulheres, elas foram lembradas apenas como objeto de decoração: dois abajures a serem comparados. Uma diminuída em face da outra. Mulheres não podem coexistir no mundo da música, aparentemente.

Sempre que você disser que ouve uma banda formada por mulheres, defenda-a. Perceba que as pessoas vão criticá-la porque são misóginas. Perceba que a aparência da vocalista vai ser o que vai colocar a banda no topo, e não aceite isso. Fale sobre como a voz dela é linda e te dá arrepios, e sobre como as letras descrevem uma vida que não é sua, mas que voconseguiu entender ao ouvir.

Não aceite que courtney Love seja "a mulher do Kurt cobain". Não aceite que as musicistas sejam acessórios da indústria musical, musas de homens tristes que decidiram morrer.

Fique acordado até de madrugada ouvindo a voz de mulheres que nunca vão chegar nas rádios brasileiras. Rebole sim ao som das que decidiram mostrar o corpo, e chore ao som das que tiveram o coração destruído por um cara que não valia a pena. Ouça as musicistas. 

Ouça as mulheres.

sábado, 8 de março de 2014

Dia Internacional de Luta das Mulheres

No Dia Internacional da Luta das Mulheres as pautas são tantas que fica difícil focar. A opressão contra mulheres é tão ampla e violenta que o movimento feminista não conseguiu em tanto tempo de existência no Brasil garantir um dos direitos básicos da saúde feminina: o direito ao aborto legal, seguro e gratuito. O significado que isso carrega vai além da capacidade dos corpos das mulheres de "gerar vida": esse debate diz respeito à autonomia da mulher e sobre o quanto ela é dona de seu próprio corpo em pleno 2014.

Além das questões básicas de saúde pública, a luta pelo direito das mulheres de fazer o que quiserem com o seu corpo vai além, embora muitos não entendam isso. A liberdade sexual, a de ir e vir, de divertir-se e de tratar sua aparência como bem entende também nos é restrita. Não há lei que puna a mulher que faça sexo "demais" ou com "muitos" parceiros, mas o julgamento da sociedade patriarcal é tanto que nossa sexualidade é tolhida e inibida, e torna-se difícil (impossível, eu diria) distinguir o que de fato escolhemos para nós mesmas.

Nós desejamos um homem só para a vida toda, ou aprendemos que, se não desejarmos, perdemos o status já não muito gracioso de mulher de valor? Aqui falo somente de mulheres heterossexuais, embora lésbicas sejam coagidas e empurradas à uma heterossexualidade compulsória violentíssima.

Em Belo Horizonte, no Bar do cabral, uma jovem alcoolizada foi agredida por um estudante de Geografia. A notícia circulou pelas redes sociais e um professor da Universidade Federal de Minas Gerais comentou o assunto culpando a vítima por estar bebendo, naquele bar. com apenas uma postagem no Facebook, um homem já de cabelos brancos cercou a liberdade de todas as mulheres com acesso àquele conteúdo: a liberdade de ingerir o que bem entende, e a liberdade de frequentar onde bem entender. A segurança nos espaços e o bom caráter dos homens não nos é garantida, e nos cobram que permaneçamos em casa, lacradas, miúdas, fadadas ao divertimento (?) caseiro designado ao nosso gênero porque temos um buraco entre as pernas. Nos veem como vulneráveis e nos encarceram, ao invés nos darem poder. Poder este que quando exigimos somos loucas, exageradas, histéricas, feminazis. Não temos escapatória.

Nossa aparência não nos pertence: somos bonecas do patriarcado, pequenas misses sendo enfeitadas com vestidos cheios de babados e camadas que nos impedem de brincar na areia, correr e andar de bicicleta. Somos adolescentes de cabelo alisado, vomitando as refeições, diminuindo e diminuindo em função de garotos que aparecem na tv e têm o dobro da nossa idade. Somos jovens mulheres que não conseguem transar de luz acesa e que gastam o salário com cabelo, depilação e um par novo de botas a cada inverno: frequentamos o salão de beleza toda semana, mas nunca pagamos por uma massagem relaxante. Somos sempre insuficientes, para nós mesmas, para nossos pais, para nossos namorados e maridos.

Eu que não me calei
Eu que não quis ser objeto
Eu que fui violentada
Eu que sou mulher



O Dia da Mulher, como nossa sociedade o celebra, não pertence à todas. Alguns diriam que pertence à mulheres brancas, cis, hétero e ricas. Eu digo que nem a elas este dia serve, porque nem elas se adequam ao modelo impossível da mulher patriarcal. As mensagens que nos mandam se referem à mães e esposas perfeitas que se desdobram em mil, que não existiam sequer na década de 40. Seremos sempre insuficientes para a máquina patriarcal, não importa como formos. Por óbvio, aquelas que se desviem mais da norma serão maltratadas de ainda mais formas pelos homens, inclusive no 08 de março: elas que serão excluídas implicitamente através do "mulher de verdade". Elas que não são objeto de decoração. Elas que não servem à sexualidade masculina. Elas que não se calam.

Mais um ano de grades invisíveis que silenciam e torturam mulheres, tornando-as frágeis demais até para gritar. Mas, também, mais um ano de luta e empoderamento.

Misoginia não passará!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pequena

TW: esse texto pode ser triggering para pessoas sensíveis com assuntos relacionados à auto-imagem, peso e comida.

Desde pequena me ensinaram a me encolher para que os homens ao meu redor pudessem ser grandes.

No carro que me levava para a escola todos os dias, eu me encolhia porque o dono de um saco escrotal ao meu lado merecia mais espaço do que eu. Eu me machucava, mas isso não importava porque ele tomaria o espaço que era dele por direito.

Eu me encolhia quando os garotos passavam por mim porque bonitas eram as meninas pequenas e frágeis, não as grandes, as Preciosas. Bonitas eram as meninas que aos 11 anos tinham seios e cintura fina, sugestões sutis de uma mulheridade que não me pertencia enquanto uma criança que preferia comer a passar maquiagem. Eu me encolhia porque queria impressionar. Eu não sabia o que era ser heterossexual. Eu não era heterosexual. Nunca fui. Eu queria impressionar homens porque me ensinaram que era isso que eu deveria fazer, porque eu era simplesmente mulher.

Eu não me sentia mulher. Eu me sentia uma criança. Mas me ensinaram assim, então eu encolhia a barriga e empinava o peito.

Riam de mim. Nunca fui suficiente.

Quando aprendi a gostar de homens percebi que gostava dos mais altos, que me carregariam com facilidade, me abraçariam com um braço só.

Eu não precisava ser protegida, mas me ensinaram que meu lugar ao lado de um homem é sempre menor, então eu tinha que parecer pequena, frágil e delicada ao lado de qualquer homem com quem me relacionasse.

O peso também era importante. Pesar mais que um homem era inadmissível; até hoje, comer mais do que homens me deixa extremamente incomodada.

Me ensinaram a me encolher para mim mesma, a deixar de ocupar o espaço pelo que paguei, a deixar de me afirmar enquanto ser humano forte, a deixar de comer o que eu gosto porque 100g a mais no prato significavam que eu era uma porca imunda que come mais do que um homem.

Eu hoje, supostamente curada de transtornos alimentares e ainda me sentindo grande demais.
Homens têm um metabolismo mais rápido, me disseram. Por isso eles podem comer esse tanto e você não. Por isso eles podem ser gordos aos 15 anos e você não. Quando eles tiverem 19, eles vão ter corpos lindos e tudo vai virar músculo: quando você tiver 19, você vai estar se matando pra perder os quilos que ganhou anos atrás.

Nunca me ensinaram o que eu podia e não podia fazer enquanto mulher isoladamente. Havia sempre um paralelo inquietante: o homem pode, você não. O homem é, você não.

Minha vida se tornou um grande paralelo entre os homens à minha volta: coloco meu braço ao lado do de qualquer rapaz e fico triste quando vejo que o meu é maior. Vejo o prato do estranho na balança do restaurante à minha frente. O dele dá R$ 11,80. O meu dá R$ 14,10. Eu engulo o almoço sem felicidade alguma. Quando vejo a foto dos ossos da clavícula de um rapaz branco no Tumblr eu me odeio porque é simplesmente injusto que ele tenha aqueles ossos e eu não. Ele não precisa ser menor que ninguém. Eu tenho que ser menor que todos os homens do mundo.

Senão não sou mulher o suficiente.
Humana o suficiente, talvez. Pessoa o suficiente.

Se eu não for menor, não mereço.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Breve reflexão sobre odiar homens

Eu odeio homens. Todo homem que já conheci, que já deixei se aproximar de mim, usou de seu privilégio para me subjulgar. Cada um deles, até os que amei e confiei. Até os que têm o mesmo sangue que eu correndo pelas veias.

Isso não me impede (infelizmente, talvez) de amar alguns homens, de querê-los por perto. E isso, também, não me impede de em muitos momentos pensar com pesar, enquanto rio na mesma mesa de bar que um ou mais homens, que os odeio. E que eles também me odeiam, não por eu ser Carol, mas por eu ser mulher. E gostaria de avisá-los que o ódio é recíproco, mas geralmente não o faço. 

Eles me avisam mil vezes que me odeiam. Falam que eu sou um dos caras para me amarem. Relevam os assédios que sofri dos amigos deles. Colocam, como sempre, a fraternidade masculina como prioridade (mas se uma mulher decide por as amigas na frente, é uma "maria vai com as outras"). Ficam rindo da minha necessidade de me impor enquanto mulher, enquanto me objetificam enquanto mulher. Rindo de mim enquanto sujeito, se aproveitando de mim enquanto objeto. 

Eu odeio homens.

Eu amo e gosto de alguns homens, também. Mantenho alguns pés atrás com eles porque sei que antes de serem Fulano ou Beltrano, foram homens, e continuarão sendo. Quando são machistas, não são Fulano ou Ciclano: são homens cheios de privilégios sujos. 

Toda vez que um homem que amo me decepciona, eu fico triste. Eu não gosto de odiar homens. Eu não gosto de odiar.

Mas meu ódio se tornou o escudo que me impede de ser pisada pelos mesmos homens que amei ou amo. O meu ódio é só o que sobrou quando eles passaram a se aproveitar do fato de que os amo.

Texto originalmente publicado no meu Facebook, mas decidi postar no blog porque muitas mulheres se identificaram.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Resenha: The Purge

purge  (pûrj)
v. purgedpurg·ingpurg·es
v.tr.
1.
a. To free from impurities; purify.
b. To remove (impurities and other elements) by or as if by cleansing.
2. To rid of sin, guilt, or defilement.



Sou uma grande fã do Halloween. Fico muito empolgada justamente por ser um dia dedicado ao horror, ao susto e à fantasia. Mal sabia que poderiam criar um dia que fosse ainda mais instigante e assustador. 
Assisti na tarde deste dia 31 ao filme The Purge, cujo título em português é ridículo demais para merecer citações. A história se passa em 2022, nos Estados Unidos. O crime é praticamente nulo e violência não é nem de longe um problema para o americano de bem. Exceto por uma noite. Segundo especialistas, o ser humano é naturalmente violento e incontrolável, e precisa liberar toda os seus sentimentos como ódio, rancor e frustração através da violência pelo menos uma vez por ano, já que somos forçados a viver civilizadamente. Assim, no dia 21 de Março, durante doze horas, todos os crimes (incluindo assassinato) deixam de ser punidos, bem como qualquer assistência policial ou médica poderá ser ofertada. 

Os ricos passam o ano se preparando para proteger suas famílias e residências com equipamentos de seguranças caríssimos, enquanto os pobres contam com a sorte e geralmente são as vítimas daqueles que desejam "purificar-se" através da violência. 

Essa premissa me pareceu genial! confesso que tive um bocado de preguiça do começo da história, que retrata um membro importante de uma companhia de equipamentos de segurança e sua família. É um grande retrato da família americana de classe alta perfeita. Mas o desenrolar do filme deixa claro que essa é justamente a intenção, satirizar a nossa sociedade contemporânea comparando-a com uma futurista. 

Trata-se de um suspense, não de terror, mas me serviu muito bem num Dia das Bruxas em que poucos filmes de horror me prendem ou me dão medo. The Purge me deixou alerta e tensa do começo ao fim com roteiro excelente, personagens convincentes (tirando o Patriarca (que inclusive o chamo assim porque age como tal, o que é bem irritante) e a filha mais velha) e, em especial, a ideia de que aquela realidade não é tão distante. 

Durante a trama alguns questionamentos são levantados. É fato que desde que o "Purge" foi instaurado, a economia americana melhorou e o crime caiu para quase zero. No entanto, não fica claro o motivo para tal: será pelo ser humano estar satisfazendo seu desejo natural por sangue ou por ricos estarem eliminando os pobres e "improdutivos"? Situação semelhante já ocorre no Brasil, em que políticas higienistas são aplicadas em bairros nobres, com a retirada compulsória de moradores de rua. O mesmo acontece nas favelas e morros, onde a polícia mata e tortura indiscriminadamente. Em The Purge, o personagem que é morador de rua e vítima das pessoas que desejam matá-lo é negro: um retrato da nossa sociedade racista, classista e higienista atual.

Inúmeras vezes este mesmo personagem é chamado de porco sujo, e dizem que a função dele é apenas morrer, já que é uma pessoa socialmente inútil. O discurso não é muito diferente do que vemos por aí em alguns núcleos. 

O grande teor filosófico do filme é a maldade humana. Ela é, afinal, inata? O filho mais novo, Charlie, é contra o período de violência desde o começo e sempre mantém esse ideal firme, enquanto a crueldade e frieza de outros personagens adultos nos impressionam durante toda a trama. 

Minha crítica a The Purge se refere apenas ao fato de ser o tipo de roteiro que possui vários finais, daqueles em que você pensa que é hora de rolar os créditos mas se surpreende. Pessoalmente, acho o modo como o recurso foi explorado no filme bastante negativo. Preferia um final mais clichê!

Assisti sozinha, mas acho que funciona em qualquer instância. De luz apagada o suspense é maior.

Dica: ótimas ideias para fantasias de Halloween em The Purge.

Máscara + facão + vestido branco respingado de sangue