Mostrando postagens com marcador peso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador peso. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Oito anos (trigger warning)

Fonte: http://shakysmiles.tumblr.com/


12
Mais uma tarde sozinha em casa. Ela era uma garota solitária e tinha muitos dias assim.  Uma das memórias mais vívidas daquele tempo era o piso frio do banheiro sob seus joelhos, depois olhos vermelhos e inchados a encarando de volta no espelho, água gelada correndo por suas mãos na pia.

13
As outras garotas da escola comiam coxinha às 9:30 da manhã, mas era ela quem era chamada de porca. Elas vestiam bermudas coladas para a aula de educação física. Um garoto a barrou na porta da sala dizendo que só as meninas bonitas poderiam entrar.

14
Adorava tirar fotos, mas só do seu rosto, que era magro.

15
Encontrara um garoto que também se sentia mal. Pouca gente se sentia mal naquela época, mas ela não entendia muito bem a graça que outras pessoas tinham em viver aos 15. Sentia-se suja, e, enquanto ele estava deitado na cama e trocavam beijos de boa noite, ela não merecia nada de bom. Era nojenta. "É sério, preciso ir ao banheiro". Embora ele não fosse muito diferente dela, o som o deixou chateado e ele se recusou a falar com ela até o dia seguinte, em que a fez prometer que não aconteceria de novo.

16
Sua garganta doía e ela estava rouca. Era inverno, suas unhas eram grandes e a comida da época era sensacional. O refluxo gástrico estava ficando um pouco fora de controle, mas o namorado da época era compreensivo e talvez não se importasse muito com o cheiro do ácido.

17
Ela duvidava que ainda estivesse sendo tão patética na altura do próximo aniversário, mas pesava-se seis vezes por dia.

18
Eles se encontram na rua. Naquele dia, as roupas pareciam mais apertadas, mesmo que não estivessem de fato. Mãos de dedos finos e longos estendem uma caixinha colorida com o nome de uma cupcakeria. Os olhos dele brilham com a expectativa pelo agradeimento dela, a alegria de quem recebe um presente. Ela começa a chorar.

19
Ela conhece banheiros, não lugares. O único lugar que conhece por paredes, pessoas e sons, é a universidade. Todo o resto são privadas, descargas, pias e espelhos sujos.

20
Faltam 15kg, e ela não consegue colocá-los para fora.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pequena

TW: esse texto pode ser triggering para pessoas sensíveis com assuntos relacionados à auto-imagem, peso e comida.

Desde pequena me ensinaram a me encolher para que os homens ao meu redor pudessem ser grandes.

No carro que me levava para a escola todos os dias, eu me encolhia porque o dono de um saco escrotal ao meu lado merecia mais espaço do que eu. Eu me machucava, mas isso não importava porque ele tomaria o espaço que era dele por direito.

Eu me encolhia quando os garotos passavam por mim porque bonitas eram as meninas pequenas e frágeis, não as grandes, as Preciosas. Bonitas eram as meninas que aos 11 anos tinham seios e cintura fina, sugestões sutis de uma mulheridade que não me pertencia enquanto uma criança que preferia comer a passar maquiagem. Eu me encolhia porque queria impressionar. Eu não sabia o que era ser heterossexual. Eu não era heterosexual. Nunca fui. Eu queria impressionar homens porque me ensinaram que era isso que eu deveria fazer, porque eu era simplesmente mulher.

Eu não me sentia mulher. Eu me sentia uma criança. Mas me ensinaram assim, então eu encolhia a barriga e empinava o peito.

Riam de mim. Nunca fui suficiente.

Quando aprendi a gostar de homens percebi que gostava dos mais altos, que me carregariam com facilidade, me abraçariam com um braço só.

Eu não precisava ser protegida, mas me ensinaram que meu lugar ao lado de um homem é sempre menor, então eu tinha que parecer pequena, frágil e delicada ao lado de qualquer homem com quem me relacionasse.

O peso também era importante. Pesar mais que um homem era inadmissível; até hoje, comer mais do que homens me deixa extremamente incomodada.

Me ensinaram a me encolher para mim mesma, a deixar de ocupar o espaço pelo que paguei, a deixar de me afirmar enquanto ser humano forte, a deixar de comer o que eu gosto porque 100g a mais no prato significavam que eu era uma porca imunda que come mais do que um homem.

Eu hoje, supostamente curada de transtornos alimentares e ainda me sentindo grande demais.
Homens têm um metabolismo mais rápido, me disseram. Por isso eles podem comer esse tanto e você não. Por isso eles podem ser gordos aos 15 anos e você não. Quando eles tiverem 19, eles vão ter corpos lindos e tudo vai virar músculo: quando você tiver 19, você vai estar se matando pra perder os quilos que ganhou anos atrás.

Nunca me ensinaram o que eu podia e não podia fazer enquanto mulher isoladamente. Havia sempre um paralelo inquietante: o homem pode, você não. O homem é, você não.

Minha vida se tornou um grande paralelo entre os homens à minha volta: coloco meu braço ao lado do de qualquer rapaz e fico triste quando vejo que o meu é maior. Vejo o prato do estranho na balança do restaurante à minha frente. O dele dá R$ 11,80. O meu dá R$ 14,10. Eu engulo o almoço sem felicidade alguma. Quando vejo a foto dos ossos da clavícula de um rapaz branco no Tumblr eu me odeio porque é simplesmente injusto que ele tenha aqueles ossos e eu não. Ele não precisa ser menor que ninguém. Eu tenho que ser menor que todos os homens do mundo.

Senão não sou mulher o suficiente.
Humana o suficiente, talvez. Pessoa o suficiente.

Se eu não for menor, não mereço.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Corpo perfeito pra gritar: CHEGA

Aqui ninguém fala mal de nenhum tipo de corpo.
Aqui todos os corpos são amados e celebrados.


Não é de hoje que vemos a indústria da beleza massacrar a autoestima das mulheres (de todas as mulheres, vejam bem) para vender. E, para minha surpresa, ela vai mais longe a cada dia.

Para desde a ponta dos pés até os fios dos cabelos, existe um produto que promete uma versão melhorada das mulheres e também adolescentes. Se seu gênero no Facebook está marcado como feminino, é comum ver anúncio de emagrecedores, "dicas estranhas", "métodos antigos" para perder peso. As imagens que ilustram essas publicidades vão desde vítimas reais de anorexia até ovos podres. 

Para quem sofre de transtornos alimentares (como eu), esse tipo de anúncio pode ser triggering (um termo em inglês que melhor define a sensação de "engatilhar" sentimentos) e muitas vezes não se pode fugir desse tipo de apologia. 

No dia 1° de Outubro o site da revista Marie Claire publicou uma foto da modelo Izabel Goulart de biquíni acompanhada da expressão "Izabel se despede do Rio e mostra corpo perfeito". Choveram comentários negativos acusando a revista de apologia à anorexia, mas também chamando Izabel de feia, esquelética e outros termos horríveis. A revista se retratou e mudou o título da matéria para "fãs elogiam: corpo perfeito.". Mais uma vez, a culpa é nossa, não das grandes mídias, não das grandes indústrias, não dos detentores de poder. Óbvio. 

A responsabilidade social da Marie Claire foi nula: a postura de associar qualquer imagem com um ideal de corpo perfeito é irresponsável e nociva. Anorexia é a doença mental que mais mata no mundo inteiro, e é exatamente esse tipo de atitude que reforça padrões de beleza facistas e que faz com que esses dados se mantenham. A atitude de jogar a responsabilidade para os fãs de Izabel, pior ainda. A notícia não nasce num vácuo: ela possui um contexto social e uma realidade na qual se insere. Dizer que não foi a revista quem afirma que o corpo da modelo é perfeito não muda o fato de que, no site da Marie Claire, está escrito que Izabel Goulart tem o corpo perfeito. 

Em sua retratação a revista se diz a favor de um "padrão de beleza saudável". Não existe padrão de beleza saudável porque padrões machucam todas as mulheres, e nenhuma de nós é realmente livre enquanto a outra ainda estiver presa. 

Somos sempre convencidas de que podemos sempre ir além, e isso não é saudável. Não estamos autorizadas a simplesmente ser. Nenhuma de nós, nem mesmo Izabel Goulart. 

Se a moça é anoréxica, eu não sei. Mas se for, os comentários negativos a chamando de feia, esquelética, "pele e osso" ajudam ou pioram sua recuperação? Atacar alguém que apenas posou para uma foto é justo? São perguntas que devemos levantar antes de criticarmos as mulheres exploradas pela indústria da beleza. Não é minha intenção colocar Izabel como vítima de "magrofobia" ou nenhuma falsa simetria do tipo. Mas é possível (e é algo importantíssimo) aprender a acertar o alvo.

O alvo são os detentores de poder, as grandes revistas, as grandes empresas, as grandes corporações. Não as modelos, que muitas vezes sim são anoréxicas e bulímicas e sofrem muito dentro da profissão, onde aprendem que seu valor é sim medido pela aparência, e que elas nunca são boas o suficiente. Que elas nunca serão perfeitas, por mais que tenham - como é o caso de Izabel - vários fãs que pensem assim. 

Num dia desses uma moça que tinha adicionada no Facebook postou um print de uma das publicidades oferecendo meios para emagrecer: na foto, os joelhos marcados e vermelhos de uma mulher que acabara de ajoelhar em pedras, com algumas delas ainda grudadas na pele por causa da pressão. Talvez o Face escolha essas imagens aleatoriamente, não sei. Mas me pareceu simbólico: quantas mais vamos sacrificar?